Se descobrir LGBT é se descobrir em constante conflito. Quando os coleguinhas descobrem o que é ser “viado” e usam isso contra você pela primeira vez dói, mesmo quando você nem sabe o que é ser isso.
Na décima vez, quando você revida e para na diretoria, dói não ter oapoio de quem te ensinaram que te protegeria. Dói sentir a decepção da sua mãequando ela te vê preferindo as calças largas aos vestidos. Dói tudo o que o seupai fala sobre quem é exatamente como você e o jeito que a sua família ri daspiadas que te deixam com um nó na garganta.
A gente olha para todos os lados e só enxerga ódio e, quando a gente olha para cima buscando um alento, a gente se depara com uma misericórdia divina que parece que não se estende até nós. Até o nosso direito à fé é negado (!) e a cada olhar torto na igreja agente se afasta um pouquinho mais. A gente sente vergonha de ocupar certoslugares, a gente não recebe mais abraços de “a paz de Cristo, irmão”, a gentenão responde mais o “Deus te abençoe” a não ser por hábito.
A gente aprende a andar de cabeça baixa pra quem sabe passarmos despercebidos porque no fim das contas acima de nossas cabeças que não funcionam como deveriam não existe nada pra nós. A gente passa a vida renegando a nossa espiritualidade, evitando as discussões apaixonadas sobre um Céu que não nos pertence e nos afastando de um Alguém que devia amar agente não apesar de nossos defeitos, mas por causa deles. Eu sei que a gente não se sente digno das promessas de Cristo, né? E eu sei que dói. Eu me senti assim a minha vida toda.
Sempre foi muito delicado pra mim esse conflito interior entre Deus me ama acima de tudo versus Deus me rejeita e eu estou condenada por gostar de mulher; eu nunca gostei nem de pensar muito sobre isso porque me deixava pra baixo.
Me acertar com Deus foi com certeza a parte mais difícil do processo de me aceitar como LGBT e por muito tempo eu só me desrespeitei o suficiente para me afastar de toda forma de espiritualidade. Eu sentia vergonha de rezar e, acima de tudo, sentia medo de um Deus que me odiava.
Isso começou a mudar um tempo atrás, quando um amigo gay que estava se formando em Jornalismo me convidou para participar de projeto. Ele estava reunindo relatos para escrever seu TCC sobre a experiência de LGBTs em seus relacionamentos com Deus e me pediu para compartilhar a minha vivência . Pensei muito e no fim das contas acabei por não aceitar o convite.
Achei que não tinha o suficiente pra contar às pessoas - nenhum momento especial de comunhão com Deus, nenhuma grande revelação divina, nenhum episódio muito marcante. Deus nunca havia aparecido para mim, nem para dizer que me ama e nem para dizer que me odeia. Deixou que eu descobrisse sozinha.
Um tempo depois, esse TCC se tornou um livro entitulado Gays Também Vão Para o Céu. Esse título foi um soco no estômago. Passei noites em claro fitando o teto. Será? Foi a primeira vez que comecei a me questionar se talvez haveria algo lá em cima pra mim também, apesar de só ter tido coragem de realmente lero livro quase um ano depois. Eu nem sei colocar em palavras a importância desse livro pra mim – inclusive quero registrar aqui meu agradecimento a ele.
Muitos meses depois, quando o Facebook já havia sido reduzido a um mero instrumento para confirmar presença nos eventos e ver as fotos da orquídea de uma parente distante, decidi dedicar um tempinho pra ver o que estava rolando na minha timeline abandonada. No meio de eventos e orquídeas, um vídeo me chamou atenção. Duas drag queens e um youtuber gay cantavam apaixonadamente. Assumi que era o último hit do mundo pop, mas quando ativei o som, qual foi a minha surpresa ao perceber que eles cantavam gospel.
Sim, isso mesmo – Drag Goes Gospel, esse é o nome do vídeo. Eu sempre gostei de música gospel, a melodia me fazia bem mesmo que muitas vezes eu ignorasse a letra porque não sentia que era sobre mim – afinal, as pessoas que no geral cantam sobre Deus são muito diferentes de mim. A realidade daquelas músicas – o amor, a conexão, o perdão - eu nunca senti que poderia ser sobre alguém como eu.
Não sei se o repertório foi especialmente pensado para LGBTs em conflito como eu, mas são cinco minutos de músicas que fizeram parte da minha vivência anterior na igreja e que repetiam como Deus me ama. Eu via aquelas pessoas tão parecidas comigo que cantavam com tanta paixão e eu via em seus olhos o quanto elas sentiam um profundo amor de Deus.
E pela primeira vez em muito tempo, eu realmente senti que havia algo maior ali comigo. Acho que foi um dos momentos mais lindos que vivi – nem sei quantas vezes nos dias seguintes eu vi aquele vídeo com lágrimas nos olhos e me sentindo, finalmente, pertencente àquela realidade em que Deus me ama também.
No fim das contas, esse texto é menos sobre a história do meu encontro com Deus e muito mais sobre o poder da representatividade. Foi absolutamente incrível pra mim ver que gente como eu podia fazer coisas que eu nunca imaginei que a gente pudesse e que sempre me disseram que não poderia.
Foram quatro longos parágrafos até aqui pra chegar a uma simples conclusão: quando a gente entende que não tem nada de errado com a gente, a gente pode tudo. Pode ser super herói na TV, pode ser protagonista de um filme, pode ser um supercientista, pode ser amado (por Deus, pela família, pelo namorado...), pode vencer cada batalha diária que eu sei que a gente enfrenta – e é lindo quando agente tem alguém que já percorreu todo esse caminho pra nos mostrar que não estamos sozinhos. Só não pode viver uma vida de abnegação forçada por uma culpa que te disseram que você precisa sentir. Combinado?




