Pra começar a ler esse texto vamos concordar em alguns detalhes. Não estou trazendo dados estatísticos sobre a violência no futebol ou se as torcidas organizadas são um problema para a sociedade. Quero falar basicamente do futebol do dia a dia. Do meu dia a dia. Aquele futebol que acredito ser a realidade da maioria das pessoas que vão ler esse texto.
Mas do futebol não vou falar agora. Vou começar pela outra parte.
É clichê falar que o brasileiro começou a se envolver mais com apolítica do país nos últimos tempos. Os motivos podem ser vários mas creio que não foi um motivo em especial e sim um conjunto de acontecimentos recentes que indignou o país e atiçou esse sentimento em cada um de nós.
Também é clichê dizer que esse envolvimento com a política do país acentuou diferenças de pensamentos que existiam (ou foram criadas no processo) entre nós. Acentuou a tal ponto que as opiniões dividiram o país, os estados,as cidades, famílias e casais dentro da própria casa.
Nesse clima de divisão e “competição” surgiu a frase:
"Política não é futebol"
E como uma pessoa que gosta de futebol e ainda brasileiro quepassou a prestar atenção na política, eu me fiz essa pergunta:
“Será que eu estou tratando política como futebol? Será que eu estou fanático de um lado sem enxergar o outro?”
E naquela hora eu achei que sim. Estava tratando política como futebol e eu estava completamente errado nisso Mas vieram novas eleições. Se antes já estávamos divididos, as eleições de 2018 vieram pra terminar de empurrar muita gente pros extremos de cada lado..
E todo mundo está envolvido nisso. Não, eu não estou (sou) isento. Nem você. E então você vai consumindo conteúdo e os algoritmos do Facebook cada vez mais vão te mostrar informações para te deixar inconformado ou mais firme da sua posição.
E assim ficamos bitolados. Ficamos rígidos. Se alguém discorda do que pensamos ou é um fascista ou um comunista. E no meio disso tudo ouvi de novo aquela frase:
“Política não é futebol”
E parei pra pensar no ponto que chegamos. Eu não sei qual a sua realidade, mas a minha é abrir o Facebook (raras duas vezes na semana) e ver logo de cara no mínimo 3 posts sobre política. Alguns vão dizer que são os algoritmos. Se eu tenho engajamento grande com esse tema, mais conteúdo sobre esse tema aparecerá na minha linha do tempo. Concordo, mas o tom dos conteúdos é o que me preocupou.
São postagens com os famosos “textões” carregados de raiva dos dois “lados”. Cheios de ofensas. No primeiro turno era ainda pior já que existiam mais de “4 lados”. Já no segundo virou confronto direto. Só que isso continua mesmo agora depois das eleições.
As ofensas são coisas do tipo“esses sem cérebros que votaram em tal pessoa…”ou “esses imbecis atrasados que são sustentados pelo governos ”, e no fundo você sabe que eu não estou mentindo porque você já ouviu isso por aí ou quem sabe… já até falou isso de alguém.
Por isso fiquei pensando que política realmente não é futebol. Mas como eu queria que fosse.
Como eu queria que a diferença entre “times” na política fosse igual no futebol. Onde eu quero que existam opiniões (ou times) contrárias a minha, afinal é isso que dá “graça” ao esporte. De que adianta todos torcerem pro meu time?
No futebol o máximo que acontece é meu time perder, eu ficar chateado um ou dois dias e no terceiro já posso pirraçar com aquela pessoa que torce pra um time adversário. Ninguém guarda rancor. Ninguém guarda ódio. Volto a dizer que não estou aqui pra falar que não existe ódio no futebol, estou falando que existe futebol sem ódio, e hoje acredito que tem menos rancor no futebol que na política.
Antes a política era o campo neutro, “vota no teu que eu voto no meu”. Não que a base do futebol seja a provocação, mas hoje estamos invertendo os papéis. O lugar que deveríamos usar para mostrar nossos valores (diga-se de passagem, civilizados) estamos usando pra mostrar ainda mais nosso temperamento descontrolado.
Todo mundo tem aquele amigo “apelão”, mas até ele uma hora ou outra, esquece a mágoa e continua no grupo do whats. Porque todo mundo sabe que ali é um ambiente que todos se entendem. É futebol. Pessoas apaixonadas por futebol, mas sensatas.
Como estou em Minas, as torcidas principais da capital são Cruzeiro e Atlético. Eu não vejo textos na minha linha do tempo dizendo “Atleticanos são sem cérebro e são a imagem do retrocesso!” ou “Cruzeirenses são assassinos imbecis!”. Se nem no futebol temos isso, por que na política?
Alguns podem dizer “política tem a ver com valores pessoais,futebol não” ou talvez usar o argumento de que na política é “diferente”.Diferente porque seria como se o meu time de futebol tivesse poder sobre todos os outros e assim poderia prejudicar o seu time. É ai que erramos.
Primeiro porque tratamos algumas áreas da vida como se elas fossem totalmente desconectadas das outras. Como se pudéssemos ser um tipo de pessoas com valores ‘X’ na política mas ser outra dentro de um estádio de futebol com valores ‘Y’ (eu mesmo já fui assim, e desde que me veio o entendimento dessa incoerência, tento mudar).
Além disso podemos contrapor o segundo argumento contando o caso do pequeno time inglês chamado Leicester.
Se você nunca ouviu falar do Leicester, ele é um pequeno time da Inglaterra, candidato ao rebaixamento em 2016, com um elenco que era o 4º ou 5ºmenos valioso do campeonato (perdia só para os times que vieram da segunda divisão).
Apesar do poder dos grandes, naquele ano foi campeão de um dos campeonatos mais disputados do mundo.Nos pontos corridos. Teve de ser o melhor time durante muito tempo. Teve de enfrentar dificuldades por muito tempo. Não foi sorte de campeão. Seria o equivalente à Chapecoense (com bem menos investimento que outros times), hoje,ganhar o brasileirão. Ou seja:
Mesmo queoutros times tenham poder sobre você isso não te impede de vencer.
Pode ser que você pense diferente, ok.
Eu provavelmente vou falar coisas que você vai discordar. Você pode falar coisas que eu vou discordar. Mas que a política seja como futebol pelo menos nesse instante. Que apesar das diferenças e do debate, a gente possa conviver no mesmo ambiente, quem sabe até assistir um jogo junto.





